A crise e o endividamento financeiro

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Não é que o Brasil queira levar vantagem em tudo. O Brasil é um país acomodado, acomodatício, até porque ele tem uma posição internacional ambígua. Nós temos uma inserção internacional independente, até prova em contrário, embora estejamos ganhando crescente autonomia nos últimos anos. Por outro lado, temos sempre a ideia de que é possível ter um projeto nacional.

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Eu não tenho tanta certeza de que seja possível um projeto nacional, dada a fragmentação, tanto das classes dominantes quanto das classes dominadas. O Brasil não é um país que tenha uma hegemonia política clara de nenhum setor. Não somos tão conservadores quanto os Estados Unidos. Ou seja, o que o conservadorismo brasileiro obrigou o Lula a fazer não é nada comparado com o que o conservadorismo americano está obrigando o Obama a fazer.

Eu não tinha ilusões, não por falta de respeito pelo Obama, porque eu até o acho uma figura interessante, mas, obviamente, não tinha ilusões de que uma figura isolada fosse capaz de vencer aquela correlação de forças. Aliás, hoje, até a direita concorda com que a crise decorra de uma aliança explícita (que agora não é mais só implícita) entre a oligarquia financeira privada e, obviamente, o poder público.

Essa crise não teria ocorrido, não fosse o fato, particularmente visível, desde o Governo Clinton, de que o FED e o Tesouro Nacional operaram sempre a favor da premissa de que nenhuma instituição financeira grande podia, na verdade, quebrar. Acaba que quebrou. A outra premissa, que, evidentemente, era ideológica, era a de que o mercado resolvia tudo, e de que o Estado de bem-estar era incômodo para o mundo. Na verdade, cada um deveria receber de acordo com o seu merecimento; isso é eficiência no mercado.

Tirando as boas ideias de justiça social — e nisso, obviamente, o Presidente Obama ainda tem muito a aprender com o Presidente Lula, que é veterano nessa luta, o que já é uma boa notícia —, se ele não conseguir mudar o núcleo do establishment americano, e, também, se ele se arruinar a ponto de não conseguir se autorredefinir, vamos ter uma crise muito longa.

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Então, eu quero avisar o seguinte: quem detesta o capital financeiro, (e eu seguramente sou uma das que detesta), é melhor não torcer para que se desfaça de vez, na hipótese otimista e ingênua de que, se isso ocorrer, nós vamos para uma sociedade melhor. Nada garante que vamos para uma sociedade melhor, e podemos ir para uma grande catástrofe, dado que não se sabe que forças reacionárias virão, se a crise se agravar mais ainda. É isso que torna o horizonte tão incerto e gera a ambigüidade das políticas.

A crise de 1930 era clara: sabia-se de onde surgiu, como se desenvolveu. Por outro lado, a crise de 1930 surgiu quando os Estados Unidos era a grande potência financiadora do mundo, com a Inglaterra totalmente arruinada, e o padrão ouro idem. Agora, a crise atual não é assim. Essa crise surge de um dólar que todo mundo achava, quando rompeu o sistema de Bretton Woods, que não iria a lugar nenhum e que se afirmou como moeda financeira do mundo.

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